Rodrigo Savazoni

Jornalista, escritor e realizador multimídia

COMENTÁRIO SOBRE O FIM (?) DO MPL

Fiquei pensando bastante nos últimos dias sobre uma frase:

“Após 11 anos de dedicação ininterrupta ao Movimento Passe Livre afirmo que o MPL chegou ao seu fim.”

É a frase que abre o texto do Lucas Legume, do MPL, no Passa Palavra.

Baita informação importante, a se considerar o lugar que o Movimento Passe Livre assumiu no país e, em específico, nas esquerdas, nos últimos anos. Uma frase histórica, eu diria.

A frase ecoou em mim não apenas pelo seu conteúdo, mas porque ela carrega consigo uma contradição importante, em sua forma, pois se trata de uma afirmação individual, peremptória, sobre o fim de algo que não propriamente pertence ao autor (ou lhe pertence completamente?), que é um coletivo complexo de militância política composto de inúmeras subjetividades.

Quem decreta o fim de quem e do que?

Acho que o próprio autor carregava consigo essa dúvida, porque o título do artigo é uma pergunta, encerra-se com um ponto de interrogação (seria o fim?), ponto esse descartado na sentença de abertura.

Mas justamente devido a essa contradição estrutural, que é objeto de uma sinceridade a qual se nota em todo o texto, gostei do que li, pois gostei da coragem, do desprendimento, e da disposição em se repensar. Eu sou um entusiasta das autocríticas. Neste momento crítico do Brasil, olhar para os seus limites, e não apontar o dedo em riste para o outro é algo digno de nota.

Se você não leu o texto, leia. É uma peça que critica o MPL pelo seu fechamento em si mesmo, revelando uma incapacidade do movimento em continuar em luta, o que seria fruto de um burocratismo extremado surgido da horizontalidade radical.

Ao lê-lo, fui remetido à minha origem política militante, ao lado de vários companheiros queridos, no Centro Acadêmico da História da USP (em regime de autogestão). As questões que o Legume coloca, muitas delas, estavam ali, latentes, e eu não fazia a menor ideia de como lidar com isso – só sabia que o impulso anárquico e libertário do autonomismo (?), na essência, me agravada muitíssimo. Para mim – e isso segue como uma verdade transcendente – certas centralizações são inaceitáveis e impedem que o melhor de cada um – em especial a criatividade – brote.

Depois da USP eu trombei com muitas coisas, muitas pessoas, diferentes escolas, e sigo tendo muita dificuldade de me enquadrar em algo (embora hoje eu não embarque em nada que recuse a palavra democracia). Do über leninismo do Intervozes ao libertarismo-comunitarista da Casa da Cultura Digital eu já experimentei de várias formas o desafio de tentar constituir organizações, mais ou menos políticas, mais ou menos à esquerda (a depender dos distintos referenciais de análise), e sigo achando esse um baita desafio legítimo. O que está aí, dado, posto, disponível, não me alimenta.

Um grande mato sem cachorro – e agora sem o MPL também.

Ao finalizar o texto do Legume, eu me lembrei do Sergio Gomes, o Serjão, o militante do partidão, me falando que a esquerda que se ama demais e cerra os punhos (“nóis é bão o resto é merda!”) precisa aprender com aquela que ama os de baixo e vive com a mão estendida, a mão espalmada, aberta ao que vem de fora. Acho que essa é uma questão central na reflexão do Legume, e também que nos devemos colocar sempre que adentramos qualquer agrupamento político.

É interessante pensar que o sucesso do MPL foi também o início de seu fim. Mas é também lógico.

Já há algum tempo, a partir da etnografia que fez sobre o movimento altermundista, Jefrey Juris estabeleceu alguns importantes apontamentos sobre os desafios para as organizações que pretendem preservar uma visão transformadora e utópica sem se deixar distanciar do real (algo que só uma leitura generosa e atenta do mundo pode garantir).

Como escrevi no fim do meu livrinho Novos Bárbaros, para Juris, as estratégias organizacionais baseadas na autonomia, diversidade, na coordenação horizontal e no uso das novas tecnologias digitais costumam ser mais bem sucedidas que aquelas mais tradicionais, baseadas em organização vertical (“de cima para baixo”), identidades singulares e conformidade ideológica.

Ele, no entanto, destaca que as formas descentralizadas mais radicais se mostraram não-estáveis.

Por isso, defende que a construção de “movimentos de base-ampla, efetivos e sustentáveis talvez requeira a combinação de modelos horizontais com outros mais centralizados”.

Parece-me que foi isso que o Legume também constatou. Ou algo semelhante. Ou talvez seja só cansaço.

Espero apenas que os bons ventos do leste ajudem-nos a dissipar a neblina.

2 Comments

  1. Pedro

    Querido Rodrigo,

    Leio teu texto o qual me remete a o muro pichado “Tá tudo bem, mas tá esquisito” – Não conheço a meninada do MPL – apostei neles em respeito a clareza nas manifestações e tanto quanto pela independência e- se assim podemos chamá-la – em não se permitirem misturar com outras “agendas e aproveitadores” daquele momento. Também não consigo me enquadrar em nenhuma ação que sinta verdadeiramente centrada na melhoria do cotidiano das pessoas. A cada manhã quando levanto busco em forma de oração ser útil, ao menos favorável ao meu semelhante, e neste micro cosmos tenho praticado a democracia. Aposto na criação em forma de companheirismo ao filhote que logo mais completa 9 anos e não ter aberto mão dessa convicção, tem me feito feliz e útil diante dessa sociedade multifacetada com a qual somos parte integrante. Mesmo assim, ainda continuo filiado ao PCdoB e continuo torcendo para sua continuidade representada por mais e mais Jandiras da vida, que é o que pouco resta da classe politica – claro no sentido figurado, pois tantos outros merecem nossa atenção e respeito, mas uma ínfima minoria. Infelizmente. Enquanto isso, seguimos nos educando enquanto educamos nossos filhotes. abração procê,

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  2. Alê Praça

    Meu caro, esse debate geométrico para definir coisas tão amórficas como as relações sociais parece ser uma discussão um pouco fútil. Dizer “horizontal”, “vertical” ou “centralizado” não define muita coisa. A questão chave é se o indivíduo se sente representado dentro do todo, se acha que a direção tomada reflete suas ambições pessoais, a confiança que tem sobre os demais membros do grupo, além da experiencia e recompensa emocional de ser parte de um coletivo.
    Os movimentos que permanecem são os que conseguem manter essa mística de maneira estável. Por exemplo, os sindicatos fazem isso muito bem ao organizar no lugar de trabalho e evocar uma identidade de classe em oposição à outra. Mas também as torcidas organizadas conseguem algo parecido usando o poder dos símbolos e a catársis nos estádios. Em ambos casos, se utilizam elementos que nunca deixarão de existir como guia (a luta de classes e o futebol).
    Eu não conheço bem o caso do MPL porque estava muito longe, mas li o texto do Lucas Legume. Talvez o MPL tenha perdido força não porque seja horizontal. Tenho a impressão que os laços que uniam os membros do coletivo – a mística do passe livre – se rompeu no momento em que o objetivo foi alcançado. Lucas reflete um pouco isso ao dizer que as pessoas começaram a instintivamente criar novos laços baseados em círculos de amizade.
    Claro que a democracia é um elemento fundamental de qualquer grupo, até porque produz a capacidade de transformação e adaptação a novos contextos e é um antídoto contra o fascismo, stalinismo e coisas do gênero. Sobre isso não há discussão. Mas talvez o ponto mais importante na construção de um movimento esteja menos na estrutura e mais na capacidade de inspirar em torno de um objetivo comum. Um abração e saudades!

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