Rodrigo Savazoni

Jornalista, escritor e realizador multimídia

CRÍTICA SEM UTOPIA = IMOBILISMO

Texto publicado originalmente no site Farofafá

São Paulo, 4 de março de 2015. São três da tarde.

Estou sentado na cafeteria do Centro Cultural São Paulo à espera de participar do encontro de Juca Ferreira com midialivristas, que podem ser definidos como jornalistas e outros seres de comunicação que integram o campo expandido da mídia em rede. Penso que um dia, lá atrás, eu também fui um midialivrista (um midiativista me agrada mais) e que ultimamente tenho tido uma vontade distante de voltar a ser (escrever mais já me basta!).

Encontro na antessala do evento amigos, parceiros, colegas, gente que faz parte de um campo ao qual pertenço, com o qual me identifico, que seguem apostando que os avanços obtidos nos últimos 12 anos não podem retroagir, mas os vejo, todos, combalidos. Até mesmo os jornalistas que trabalham na big media, e que são meus amigos (eu também já passeei pelas redações campo-de-concentração do capitalismo midiático e adorava a rotina das redações), estão sem saber o que dizer – mas ao menos conhecem a pauta que irá agradar os patrões.

E nós? Qual a pauta que nós queremos discutir ali? Vamos discutir regulação dos meios de comunicação? Mas o que a cultura pode fazer por isso? Comunicação pública? E o Kiko? Internet, marco civil? Isso basta?

Pouco depois das quatro, entramos na Sala Adoniran Barbosa, uma arena, uma ágora, e nos acomodamos nas cadeiras. Eu fico ali pelas laterais, olhando o pessoal do governo e o pessoal da mídia livre. Não estou um nem outro, mas me sinto um pouco um e outro. E lembro que dois anos antes estava no centro daquela sala, ao lado de Juca, na primeira edição do #ExisteDialogoemSP, o povo quase suspenso no ar, o ambiente lotado, a energia pulsando. Queríamos muito mais.

Na roda da mídia livre o clima é ameno. Não há contraditório no ar. Não há nem sequer expectativa de expressão do clima de fla-flu que reina nas redes sociais, em especial na bosta de Facebook, que colonizou a querida web e fez dela um shopping de histerias.

Juca está ladeado pelo novo presidente da Funarte, Francisco Bosco, pelo secretário de Políticas Culturais, Guilherme Varella, e pela secretária de Cidadania e Diversidade Cultural, Ivana Bentes. Equipe de gente comprometida com a agenda de uma nova comunicação. Gente que está estruturando a nova fase do Ministério da Cultura, com a qual buscarão retomar o caminho desenhado com régua e compasso por Gilberto Gil na era Luiz Inácio Lula da Silva.

Em sua intervenção, Renato Rovai, jornalista, editor da revista Fórum, assume-se porta-voz de um sentimento generalizado: só o passado não basta. É preciso ousar, mexer na estrutura decrépita da comunicação brasileira. O MinC não pode se relacionar com a mídia livre por meio de um ou outro edital. Deve liderar uma agenda que abra caminho para uma efetiva comunicação alternativa no país. E garantir que essa agenda avançará. Se antes não tinha, agora tem a possibilidade do diálogo com o Ministério das Comunicações, diálogo esse que a equipe do ministério reporta já ter se iniciado (mas há de se agir rápido).

Concordo com Rovai! Aliás, todos ali concordam.

Mas como fazer isso?

Há cinco anos, quando findava o governo Lula, o clima era de esperança. Não é mais, e isso se fazia sentir durante a roda de conversa e também nos bastidores, nos olhares, nas expressões corporais dos midialivristas. Quando Lula presidente rodava o país, projetava uma perspectiva generosa. Hoje, o horizonte está embaçado. A articulação das oposições cresce. A conjuntura parece ter esquecido que há menos de meio ano Dilma Rousseff foi reeleita presidenta do Brasil. Os meios de comunicação tradicionais, aparelhos das elites, são o epicentro organizador da instabilidade – que não é apenas fabricada, visse! É também reflexo dos erros cometidos pelo bloco governista.

Juca diz isso, reconhece isso, expressa esse desconforto. Com a mídia e com os erros de seus pares. Isso é importante. Mas não basta. O que precisamos agora é de liderança.

Quem guiará a esperança?

Não falo da volta do Messias (embora no messiânico Brasil isso talvez se faça necessário), mas de uma agenda explícita de realizações a defender e de sonhos a compartilhar. Isso se faz com imagens e sons, com narrativas e angulações distintas das que vigem em massa.

Quem terá a coragem de nos apresentar o caminho certo?

A análise da conjuntura, o reconhecimento das dificuldades, sem a projeção de soluções, nos desmobiliza ainda mais. Nos afasta ainda mais da possibilidade de uma vitória (para um poeta beatnik sempre há uma opção: revolução ou piquenique).

Penso: a análise é crítica. Sempre será. Mas a utopia é positiva. Sempre será.

Crítica sem utopia = imobilismo.

Rola o debate do Centro Cultural São Paulo. Nas redes sociais chega a notícia da desocupação do Parque Augusta, a revolta dos participantes, a tristeza de quem tentou viver um outro sonho feliz de cidade no meio da barbárie.

Quando já se vão mais de oito da noite e a gente toma uma gelada no botequim da esquina, sob a luz da lua cheia, chega o texto do Peter Pal Pelbart, escritor e pensador que muito admiro, tradutor de Gilles Deleuze para o português. Fala do sonho político de quem ocupou o parque.

“Não é uma utopia ingênua de idílico retorno à natureza, nem uma comuna hippie deslocada no tempo e no espaço, mas uma aposta biopolítica que, embora enunciada numa escala diminuta, pode destampar a imaginação política em escalas outras. Afinal, a questão central, mesmo e sobretudo em tempos de crise, continua sendo: que formas de vida nós desejamos hoje?”

Entro no metrô rumo à minha Baixada pensando sobre a frase de Peter, que todavia é um concentrado do que tem mobilizado meus dias: “Que formas de vida nós desejamos hoje?”.

A essa frase, articulo outra, reflexo do debate da parte da tarde: “E qual será a comunicação que nos ajudará a obter uma outra vida? E qual forma de organização levará as explosões biopolíticas à vitória? Para onde estamos indo afinal?”.

Parte da mídia livre estava ali, disposta a dialogar com o ministro. Outra parte estava na rua, resistindo à repressão do desejo (e sendo reprimida). Onde irão se encontrar?

O Ministério da Cultura de Lula foi um essencial agente indutor de dissidências, um catalizador explosivo de rumos outros, uma interface biopolítica entre o velho e o novo.

É preciso que o Ministério da Cultura de Dilma 2 recupere essa verve e a projete adiante, reconhecendo no contexto atual as gigantes exigências da conjuntura (des)favorável (isso Juca tem feito com maestria). Mas falta agora apontar um futuro que contribua para reaglutinar as forças vivas em torno de um processo real de transformação da realidade brasileira.

Isso é mais difícil, mas muito necessário.

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