Rodrigo Savazoni

Jornalista, escritor e realizador multimídia

Mudança de rumo no Ministério da Cultura é notícia na Espanha

O jornal El Mundo publicou neste domingo matéria sobre a situação do Ministério da Cultura do Brasil escrita por seu correspondente no Brasil, Germán Aranda.

Para escrever a matéria, Germán enviou-me algumas questões por email, as quais respondi e, agora, aproveito para compartilhar seu conteúdo integral uma vez que apenas parte da conversa – como é normal – aparece na ótima reportagem que ele escreveu. Creio que algumas coisas que escrevi servem para contribuir com as recentes a avaliações que estão sendo feitas por grupos que saíram em defesa da gestão Ana de Hollanda, processo capitaneado peo mais que respeitável pessoal da Casa de Ruy Barbosa.

Reportagem sobre Ana de Hollanda na capa do El Mundo

Para esclarecer o público brasileiro, no título de seu texto Germán faz referência à Ministra da Cultura na gestão de José Luis Zapatero (PSOE), que comandou a aprovação de uma lei que permite ao governo tirar do ar sites que violem a “propriedade intelectual” dos “criadores”.

A aprovação dessa lei, que contou com apoio dos principais partidos espanhóis, o PSOE e o PP, foi um dos estopins para todas as manifestações que tomaram as ruas em defesa de uma democracia real. Ao não darem ouvidos ao clamor que vinha das redes, Sinde e Zapatero ajudaram a catalisar um descontentamento geral na sociedade, que cada vez ganha mais força por lá.

1. Como você avalia a situação atual do Brasil em relação à cultura digital livre e por que a avaliação de que ela mudou?

O Brasil foi um país que enfrentou, durante o governo Lula, e a gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira, as implicações da cultura digital sem temer o novo. Sem tecnoutopia, nosso país parecia ter compreendido que essa não é uma transformação pontual e procurou vislumbrar o que de bom ela poderia trazer para uma nação em desenvolvimento, de enorme diversidade sócio-cultural. Ou seja, nos oito anos de Lula, olhamos o digital como um potencial aliado para a construção de uma sociedade mais justa e livre. Isso fez do Brasil um país diferente, que caminhava na direção oposta daqueles que vêm na extensão dos direitos de propriedade intelectual para a era digital a única forma de gerar desenvolvimento. Com a chegada de Dilma Roussef e de Ana de Hollanda ao ministério da Cultura, essa orientação foi revista. O novo governo, ainda que seja de continuidade, sucumbiu aos interesses da grande indústria global do entretenimento e recuou do ponto de vista do discurso e da prática. No discurso, a nossa ministra chegou a afirmar que a internet pode acabar com a cultura brasileira. Agora, nós é que somos a Espanha, e já temos por aqui a nossa própria Sinde.

2. Que influência tem esse episódio do ECAD e a relação com a ministra nesse contexto de mudança?

A relação entre Ana de Hollanda e o ECAD é mais uma evidência desse retrocesso. Ela é parte integrante de um desmonte orquestrado, que recolocou o “artista”, o “criador”, no centro do sistema, sendo que esse artista, para a ministra Ana de Hollanda, é um ser mítico, reluzente, urdido pelo divino, que merece, portanto, todas as benesses do Estado. Isso no momento em que todas as partes do mundo podemos constatar a dissolução dessas fronteiras artificiais entre profissionais e amadores, realizador e público, quem cria e quem consome. Enfim, o que quero dizer é que essa permissividade com relação ao ECAD é parte de algo mais profundo, ou seja, de uma visão parcial da cultura, vista aqui como belas artes, numa claro revisão das bases propostas durante o período do governo Lula.

3. Será que a visão de Lula e Dilma são diferentes ou o que ocorre é mais um assunto dos próprios ministros?

Lula foi um presidente especial. Ele soube jogar com as diferentes forças constituintes da sociedade brasileira. Por isso percebeu que caberia a ele pôr em primeiro plano, trazer para o centro do palco político, a tradição insurgente da antropofagia, que foi sistematizada a partir do modernismo brasileiro. Ao escolher um ministro tropicalista, como Gilberto Gil, Lula fez o que ninguém jamais ousou fazer: permitir, como regra, o desenvolvimento de políticas públicas de estímulo às dissidências da indústria cultural. Ou seja, políticas de fomento à enorme diversidade cultural de nosso país. Essa era a orientação, o norte. Dilma é uma presidente que está dando continuidade a muitas das políticas de Lula, mas seu foco é essencialmente econômico. Sua sensibilidade para esse tipo de micropolítica, de lutas no plano dos símbolos e dos valores, é reduzida. Dilma poderia dar um passo no sentido do matriarcado de Pindorama, que advogava Oswald de Andrade, ou seja, lidar com o poder tendo como essência a visão feminina. Mas parece ser o oposto. Acho que a gestão de Ana de Hollanda responde a esse “endurecimento” do governo, a uma visão mais economicista, e ao mesmo tempo menos conectada com o novo.

4. Qual a semelhança entre o caso brasileiro e o caso do SGAE na Espanha? Acham que o relacionamento entre Ana Buarque de Hollanda e o ECAD pode ser chamado de corrupção?

Estamos vivendo um processo muito parecido com o que a Espanha viveu recentemente. E, que, de certa forma, colocou grande parte da juventude urbana contra as instituições políticas tradicionais. Dizer que é corrupção seria demasiado forte, mas que há um claro conflito de interesse na relação entre a ministra e o ECAD isso há. Algo que deveria inclusive ser analisado pela comissão brasileira de ética pública. No governo de Dilma e Ana de Hollanda, o ECAD passou a ditar o rumo do discurso e as ações do Ministério da Cultura com relação aos direitos autorais. Uma instituição cuja credibilidade é mínima, reposicionou-se e readquiriu seu poder em uma dança política que ocorreu exclusivamente nos bastidores. Ou seja, algo que demonstra que de fato precisamos de uma democracia real, e não desse arremedo de liberalismo que temos atualmente. Espero – e estamos trabalhando para isso – que esse episódio nos ajude a conseguir mobilizar mais e mais gente para lutar por mudanças reais na nossa política.

3 Comments

  1. Ricardo

    Dilma “ir” aos EUA pedir “parceria para o seculo 21” me lembra Fausto pedindo ao demonio um “plano de metas” para poder receber deste a imortalidade. Ng se aproxima do mal esperando que o mal peça, em troca, favores relativos ao bem. Do mal se espera o mal. Dos EUA se espera repressão, opressão, injustiça, infortúnio (do governo de lá, que representa estes interesses conflitantes com o mundo atual – vemos cada vez mais este choque, de “os EUA querem uma coisa e a sociedade mundial outra, completamente diferente” – não é mais a sintonia do passado, a dissintonia reina, hoje eles representam o mal).

    Dilma, no jeito dela calado, de sempre, poderá vir com o ACTA embaixo dos braços. Provavelmente não assinará de imediato (nos bastidores). Provavelmente tará o chumaço de papel higienico, redigido pelos norte-americanos, para cá, para análise. E com os neo-liberais tucanos e puxa sacos dos EUA que a rodeia, em seus mais que lamentável governo, certamente todos darão aval positivo para assinar. Se bobear nem o legislativo, nem o partido (PT) será consultado. Será tudo ao estilo dela, que tanto se orgulha, na calada. Assim como nos apunhalou antes, apunhalará de novo,´e só saberemos o golpe depois da primeira dor.

    Se este é “o primeiro governo feminino da história do Brasil”, tão declamado pelas orgulhosas feministas e pela própria, começamos muito, muito, muito mal. Certamente será combustível futuro de se falar “ah, que se esperava de uma mulher no governo ? olha a traição aí como assinatura….”. Precisamos de orgulho sim, mas orgulho real por uma coisa boa. Uma mulher representando a esquerda retrógrada entreguista submissa e até vendida á direita e aos interesses dos EUA não fica “bom para a foto”. No sir, nem hoje, nem ontem, nem amanhã.

    Certamente Dilma espera um “pacote de bondades” em troca da “cabeça” dos brasileiros (internautas, eleitores traídos, etc). Fausto de novo vendendo o que pode á Lucifer, em troca e alguma imortalidade… Diz esperar que os EUA aumentem o investimento no Brasil (afinal, a “máquina de fabricar dolares artificais” que é o Banco Central do USA, moeda de valor fictício e “emocional”, sem mais lastro, corrupta, de crédito especulativo e artificial é que não vai faltar pra fazer girar a ciranda da grande corrupção e patetada que se tornou o ultra capitalismo moderno, capitaneado pelos EUA).

    Dilma, coitada, cre na esperança que Obama não despeje mais dolares papel-moeda-pintado de crédito-fictício-fabricado-artificial no mercado e nas Bolsas brasileiras, a fim de que ela mantenha o sistema financeiro nacional controlado…. COMO se Obama fizesse isso, termo que hoje em dia é ESTRATÉGICO á economica dos EUA para manter o dolar mais barato e seus produtos (em alguns casos ultra valorizados, como produtos autorais, softwares) mais barateaveis e acvessiveis á exportação para as provincias, satelites e republiquetas deste planeta. É ESSENCIAL esta politica hoje de dolar ficticio injetado em Bolsas e outros nos países para manter o dolar competitivo e os produtos dos EUA mais facilmente “vendáveis” á população deste planeta. Já que nos royalties não mexem… mexem então na ficticionalização do valor do dolar no mundo para facilitar a vendagem de seus produtos. Dilma deve estar ficando preocupada porque, com a intervenção do Banco Central para conter a baixa do dolar está “esvaziando” seus 300 e tantos bilhões de reservas estrategicas na moeda yankee. E se continuar nesse ritmo em poucos anos chegará a um nivel critico.

    É claro que, no caso da Dilma a ÚNICA solução para combater isso e BARATEAR o “custo-Brasil” para os empresarios nacionais, diminuir impostos, e investir, PESADO, numa industria nacional verdadeira, em areas que necessitam, como fabricação de chips, eletronica, desenvolvmento eletronico, etc. É A ÚNICA SAIDA. Quanto ao software pode-se investir, mas aí precisamos ver OUTRO LADO da questao, a questão social, até que ponto a lei de direito autoral e patentes é JUSTA para a sociedade, não apenas o produtor. Isso é outro problema, fora das discussões da Dilma, que só se preocupa com a economia e com a estrategia do USA em drenar nossos dolares de reserva.

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  2. Ricardo

    Muito maior lucidez tem o governo da China, que, ao contrário da Dilma, ao invés de se preocupar em manter os “dolares de reserva” (calculado em torno de 4 a 8 trilhões de dolares, no caso da China) para “controlar a economia” nacional, estão vendo a FURADA que é manter papel moeda pintado, de valor fictício em seus bancos e estão fazendo (o que deveriam fazer antes, mas provavelmente não o fizeram apenas por “política de boa vizinhança” com os EUA, mantendo titulos podres da moeda norte-americana a fins de ajudar os controlares do mercado em não alardear que o dolar é furada, já que os EUA podem entrar numa grande “Bolha Economica”, maior que todas as outras, em breve – e certamente irão entrar, pois a moeda é fictícia e os créditos são irreais) a conversão, e trocando dolar pintado por algo de REAL VALOR, reservas de prata (QQ METAL, desde que não muito abundante é preferível como reservaá QQ MOEDA de QQ PAIS).

    Os China estão então fazendo o caminho contrario da Dilma, se livrando do lixo de papel pintado, de valor “emocional” e ficticio, por algo de valor REAL, hoje e daqui há 500 anos, até se os EUA não mais existirem, o metal prata como reserva estrategica economica. OBVIAMENTE estemovimento AZEDOU as relações com os EUA, que Obam fez várias e várias ameaças (dizendo que a China não estava “cumprindo as regras do jogo” – sim, e quem DITA as regras ? hehe…), inclusive com movimentações da esquadra naval yankee nos mares China-Russia, do qual a Russia prontamente ameaçou a presença desta esquadra em seus mares como “inadmissivel”.

    É, não é facil administrar uma republiqueta….

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  3. Ricardo

    Uma ultima coisa: na tv, estes dias, noticiando o encontro, se ve uma Dilma totalmente abatida, de rosto emocionado decepcionado, paando um incrivel mico internacional, do lado de um Obama cabisbaixo, tb com cara de tacho, tb aparentando está numa situação “de avestruz”, sem saber o que fazer.

    Posso estar engando, e Dilma apenas estar doente (naquele momento) (pois aparentou estar muito triste, de rosto, dedepcionada, ainda que tentando mantem os tons de voz firme, sem embargo), mas aparentava uma Dilma com cara de tacho, muito decepcionada do encontro do tipo “o que eu vim fazer aqui” e um Obama, como pessoa, tb constrangido pela atitude de sua visitante.

    Provavelmente Dilma disse “vim aqui e aceito até o ACTA, entregando a cabeça dos brasileiros interconectado na banddeja, como queres, amo senhor, e o senhor não me oferece nadas em contra-partida ? estava esperando maciços investimentos na republica e que assinemos um termo que o sr se cmprometa a não mais permitir que se despejem dolares sem lastro no sistema eonomico brasileiro, a fim de poupar minhas reservas que tanto custaram ao governo anterior acumular, inclusive doar parte de nossa nação, a preço vil, em moeda podre e aumento monstro de tarifas dos provatizados para termos o luxinho ilusório de manter esta massa de reserva que nos dá tranquilidade para gerir esta economia ilusória bancada pelo dolar ficticio do império!”.

    Obama deve ter dito “até conseguiremos algumas parcerias e alguns investimentos, vc tem que assinar o ACTA e mandar bala no c… dos seus eleitores, para nos agradar e nossos industriais, mas… mudar nossa politica economica atual não tem como, precisamos vender nossos produtos, já que nossos industrias não caem seus preços o jeito é o governo baratear a moeda de suporte para eles. Não tem jeito não!”.

    hehe. E nem adianta demonizar Obama. Ele faz o que o império quer dele, ou seja, o sottogoverno economico, bancado por uma centena de magnatas maçonicos, que controlam os EUA de cabo a rabo, quiça o mundo. Dilma que foi lá pagar mico mesmo. Bem feito! Isso não quer dizer que ela voltará de mão vazia, certamente assinará os acordos, e o ACTA embaixo do sovaco. Afinal, um governo desgraça como esse tem que seguir o “script” a que se propos e terminar sendo desgraça mesmo, sem medo de olhar para trás e pensar em mudar de opinião e posições.

    A única pergunta que faço é se sr. Inácio sustenta este embrolio todo ou se nos bastidores está um pouco decepcionado com Dilma mas nunca confessará.

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