Rodrigo Savazoni

Jornalista, escritor e realizador multimídia

Sonho de um dia de trabalho, poema de Manuel Esnaola

Manuel Esnaola, de Córdoba, Argentina, do livro nada fuera de lo común

Acaba que todos riem
na ilha de trabalho e eu meio desconcertado
lhes digo de que estão rindo?
da outra ponta do corredor aparece o chefe
se joga no chão desmembrando-se também
de tanto rir segura a pança
como se lhe tivessem dado uma punhalada
Eu me apalpo o corpo a gravata prolixa
os botões da camisa no seu lugar
existo estou aqui parado
digo para mim e nisso vem a secretaria
com uma garrafa de Whisky nas mãos
toma um trago Manuel
eu bebo tudo o que posso, empino a garrafa
onde está com a cabeça nenê?
Me consola em tom maternal
Mas do que eles riem?
Vem o Rolo e me oferece um baseado
o chefe segue jogado no chão
Com certo ar frenético dou um tapa
Mas esse prédio tá cheio de gambés!
digo ao Rolo enquanto o fumo sobe
até os detectores de um momento
a outro vai começar a chover
Causa de origem: Esnaola fuma maconha
em seu lugar de trabalho
Em um ato de inércia toco minha cintura
é como se passasse a entender tudo
olho para baixo tenho uma revelação
apenas os mocassins e as meias postas
as calças eu esqueci
suspensas na cadeira da minha casa
Sem enlouquecer dou outro pega no baseado
e vejo que da ilha de trabalho contígua
saem como zumbis os recursos humanos
que me oferecem seringas cartões pastilhas turbinas
mas que caralho é isso?
Eu grito ao Rolo
me peço que me jogue pela janela ao campinho do ferroviário
que quero acordar agora
não, melhor que me leve
no cano de uma bicicleta roubada
até o penhasco onde se rompe o sonho.

(tradução Rodrigo Savazoni)

COMENTE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *