Mai 13 2008

Cobertura multimídia dos Repórteres do Futuro

Quinta, sexta, sábado e domingo rola o Fórum do Nossa São Paulo, movimento amplo e suprapartidário, coordenado pelo Oded Grajew, que trabalha por soluções para a cidade.

Desde março, assumi a coordenação de um projeto sensacional, chamado Repórter do Futuro - Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter, criado pelo Sérgio Gomes na Oboré há quinze anos.

Unimos as duas experiências, o Fórum, sobre a cidade, e o curso para futuros jornalistas, sobre a cidade, e iremos realizar uma cobertura multimídia durante os dias do evento.

De domingo até amanhã, subiremos nos endereços www.reporterdofuturo.com.br e www.reporterdofuturo.org.br um blog multimídia que irá abrigar a produção em texto, áudio, fotos e vídeos dos estudantes.

O blog já está no ar, no servidor Utopia do IPSO, do grande parceiro Carlos Seabra. Depois, ele permanecerá no ar, abrigando a produção semanal dos estudantes e desovando muito material de arquivo, de excelente qualidade, que está no acervo da Oboré.

Repórter do Futuro

Essa é a foto da página, desenhada e montada pelo Paulo Fehlauer, que será também o coordenador da cobertura multimídia. Eu, infelizmente, não poderei participar o tempo todo do processo. Quem também vai dar uma mão nesse esforço é o André Deak. Depois, posto com mais calma os resultados desse trabalho.

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Mai 01 2008

CAPÍTULO 1: Conheça a Garapa, uma produtora multimídia

Garapa

Se você navega por sites gringos, com o olho condicionado, encontra reportagens de altíssima qualidade. Isso é resultado da explosão do jornalismo digital nos últimos dois anos. Texto, áudio, vídeo, foto, mashups, mapas reunidos por criativos jornalistas resultam em histórias contadas de um jeito que jamais se viu. Alguns chamam de multimídia. Eu gosto da expressão hipermídia.

No Brasil, esse processo é mais lento. Pouca gente, até agora e infelizmente, apostou em boas reportagens digitais. Há apenas um centro de excelência, montado no Jornal do Comércio em Recife. Quando estive na direção da Agência Brasil, tentei construir algo. Às vezes, surge coisa interessante no G1. São exceções. A regra é produzir com pouco orçamento materiais quase amadores.

Daí o pioneirismo da Garapa, produtora de jornalismo multimídia montada por Paulo Fehlauer, Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes. São poucos os trabalhos disponíveis no site do coletivo. Mas esse pouco já permite dizer que estamos diante de grandes contadores de histórias. Em especial, destaco o trabalho de Caobelli sobre a cobertura do caso Isabella pela imprensa.

A inspiração da Garapa é o MediaStorm, de Brian Storm, ex-diretor da MSNBC que resolveu apostar seus dotes e dólares na construção de uma produtora digital para a rede. O MediaStorm tem trabalhos publicado por veículos da grande mídia americana, entre os quais a própria MSNBC, o Washington Post e o Los Angeles Times.

É impossível não se emocionar com trabalhos como o Blodlines, finalista do Emmy, ou o sensacional Kingsley Crossing, vencedor do Emmy. Na época do vídeo fácil, do You Tube, o MediaStorm tem apostado em trabalhos de altíssima qualidade, baixo orçamento e muita criatividade. E tem contribuído para ampliar os horizontes de quem trabalha contando histórias no mundo digital.

Fehlauer, Caobelli e Marcondes resolveram entrar nessa briga. Por enquanto, estão fazendo na raça. Logo logo, espero, alguém vai sacar e vai bancar para eles condições de seguirem aperfeiçoando essa linguagem. Enquanto isso, contribuo à minha maneira com esse post e mais dois, que virão na seqüência.

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Mai 01 2008

CAPÍTULO 2: O que dizem os garapeiros

Entrevistei Paulo Fehlauer, Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes, os fundadores da Garapa, por e-mail. O resultado é esse aí que vocês conferem abaixo.

Quem enviou as respostas foi o Fehlauer, camarada que tem trabalhado comigo na construção do Publico. É uma turma de talentosos jornalistas, de caras que trabalham tão bem, tão bem, que às vezes, o que eles fazem, até parece arte (acho que é arte sim).

garapa 2


Quando a Garapa foi fundada, por quem e qual a idéia de vocês com isso?

Acho que ainda estamos nesse processo, descobrindo uma linguagem. A Garapa foi meio que gerada, espremida mesmo, quase como uma vontade coletiva dos 3 sócios, que colidiu em um momento muito oportuno. Voltei de Nova York com muita vontade de explorar esses novos caminhos do jornalismo, tendo participado um pouco desse debate por lá. Chego ao Brasil e encontro o Leo, que trouxe o Rodrigo de Londres pensando em fazer algo na mesma linha. Somos 3 “garapeiros”: Leo Caobelli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes, três jornalistas-fotógrafos indignados com a mesmice do nosso jornalismo.

Falem um pouco das influências. Dá para perceber que Brian Storm e sua MediaStorm são referências de vocês. Quem mais?

A MediaStorm é definitivamente uma inspiração. Pelo que sabemos, é a única empresa dedicada à produção desse tipo de conteúdo. É incrível que eles consigam fornecer ao mercado editorial peças com mais de 10 minutos de duração, um tempo relativamente longo para a internet. As agências VII Photo e Magnum têm trabalhos belíssimos, mais ligados à tradição fotográfica. Acho que também somos influenciados por uma tradição de documentaristas, fotógrafos e cineastas, e, por que não, romancistas, cronistas. No fim das contas, queremos contar histórias, e estamos explorando os meios que nos parecem mais interessantes.

Vocês partem da fotografia para o exercício da narrativa hipermidiática. Esse tem sido um caminho natural nos Estados Unidos. O último Pulitzer premiou uma fotógrafa que fez um trabalho, fantástico, audiovisual. É esse o caminho para os fotografos agora?

Não sei se para os fotógrafos de forma geral, tem muita gente que não quer saber disso, mas achamos que há um espaço a ser ocupado. Nos EUA, há até uma certa pressão sobre os fotojornalistas. Muitos são obrigados pelos jornais a levar câmeras de vídeo e gravadores de áudio para a rua. Por outro lado, ainda tem muita gente que não abre mão do filme. Mas não há dúvida que a internet abriu muitos caminhos, e há uma geração de fotógrafos e jornalistas que quer explorá-los. Há uma linguagem a ser desenvolvida, e um público a ser formado – público esse, é bom lembrar, que se habituou rapidamente aos vídeos curtissimos do YouTube e congêneres.

Com a internet, os formatos se diluíram muito, fica difícil delimitar os conteúdos. E, se os campos se cruzam, é natural que a fotografia se ligue a outros formatos. As ferramentas são cada vez mais acessíveis, e o fluxo de informação cada vez maior. Acho que a idéia é achar formas de expressão que se encaixem nesse fluxo, e acho que essa é a nossa busca.

Qual a sua avaliação do trabalho realizado pelos veículos jornalísticos online? Você acha que os grandes abrirão espaço para esse tipo de trabalho?

O mercado brasileiro é bem diferente do americano, bem menor, bem mais concentrado, tradicional, familiar, é até injusto comparar. Pelos contatos que tivemos recentemente, percebemos que essa abertura deve começar pelos veículos essencialmente online, como os grandes portais. A estrutura dos grandes conglomerados da mídia impressa ainda é arcaica, conservadora, pouco atenta às mudanças. É impensável, por exemplo, uma integração de redações como as que têm passado os grandes jornais dos Estados Unidos. Aqui, impresso é impresso, online é primo pobre, e a lógica nesse caso costuma ser a do máximo lucro com mínimo investimento. Mas em algum momento essa abertura vai acontecer. Grande parte do público desses veículos têm acesso a banda larga, e há um potencial de geração de receita com publicidade ainda pouco explorado. Quando o primeiro grande veiculo investir, a concorrência vai ter que correr atrás. Acreditamos que, em um momento não muito distante, a produção online vai se dissociar bastante do conteúdo impresso.

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Mai 01 2008

CAPÍTULO 3: Uma crônica multimídia

Um dos primeiros trabalhos que a Garapa oferece em seu site é um áudio slide-show conciso sobre uma história triste do cotidiano metropolitano. Um caminhão derrubou a parede de uma casa e matou uma senhora. Seria, no máximo, uma nota, na Folha ou no Estadão. Em um jornal popular, renderia uma matéria um pouco maior.

A depender de quem fosse a mulher, poderia gerar suítes. Como a senhora da ocasião era negra e pobre, provavelmente o assunto seria esquecido no outro dia. Só restaria a ausência para alguns - sua família, a vizinha, os colegas de trabalho.

Paulo Fehlauer, com sua sensibilidade e sua insensibilidade (mistura que faz o repórter), chega ao local do fato e conversa com quem foi atingido pela tragédia. Munido de sua máquina fotográfica e de um gravador digital, recolhe o insumo necessário. Edita tudo isso em algumas horas e, ao fim do dia, o que seria uma nota insossa sobre um crime relativamente banal se transforma em uma crônica multimídia. Algo que, se publicado fosse, contrariaria Rubem Braga e levaria vida ao jornal digital.

Pedi ao Fehlauer para fazer o making off desse trabalho.

garapa3

Fiz o slideshow justamente para mostrar como isso pode ser um processo simples. Recebi uma pauta aparentemente simples, apesar de trágica: um caminhão havia invadido uma casa na periferia e vitimado uma senhora de uns 60 anos. É o tipo de notícia que chega a dar no máximo uma nota no dia seguinte, mas que gera um burburinho momentâneo quando publicado na web. Vi algumas notas em sites noticiosos com vídeos feitos a partir de helicóptero, outras com fotos do local.

Cheguei ao local do acidente e o caminhão ainda estava lá, a CET se preparando para guinchá-lo, o dono da casa, e marido da senhora morta, conversando com policiais. Fui como fotógrafo, mas percebi que o jornal sequer havia mandado repórter. Fiquei tocado pelo que aconteceu, e isso me fez perceber que aquela história deveria render mais do que uma simples nota. Peguei um mini gravador de áudio que carrego comigo e o deixei gravando o barulho ambiente por um tempo, com todo o processo de remoção do caminhão, tijolos caindo, vidros quebrando, curiosos falando sem parar. Depois resolvi conversar um pouco com o dono da casa, que parecia sereno apesar de ter perdido a esposa. Conversei também com alguns vizinhos e pensei em imagens que pudessem ir além do mero registro do acidente, mas que pudessem contar uma história. Ou seja, fui repórter.

Passei cerca de duas horas no local, depois segui para outras pautas. Acabei editando o material só à noite, já em casa. Fiz uma seleção inicial de imagens, depois editei uma faixa de áudio com aproximadamente 1min30s de duração, juntando o som ambiente com os depoimentos. Joguei tudo no software Soundslides e, em mais duas horas de trabalho, tinha o slideshow pronto para ser publicado.

Chamei o post no blog da Garapa de “Multimídia no Jornalismo Diário” porque queria reforçar essa possibilidade. Descontando os intervalos, da captação à finalização foram no máximo 5 horas de trabalho, que trouxeram um olhar completamente diferente sobre uma história que passaria batida. Meu objetivo era mostrar ao público um pouco do que eu próprio senti naquele momento. Infelizmente, não temos essa liberdade na dita grande mídia. Somos mais robôs registradores do que seres humanos. E é contra essa robotização que queremos lutar com a Garapa.

Queria aproveitar que estou falando sobre o Fehlauer para indicar este documentário que está no seu blog.

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Abr 25 2008

Globo Livre? Segue o debate

Globo_Livre

Minha provocação anterior já rendeu um debate legal, com contribuições de muita qualidade. Como ainda tem gente que vai a blog e não lê comentários - reproduz o esquema de ler um velho jornal de papel - produzi um post articulando as posições dos meus parceiros de produção de conhecimento.

A Tainã, do blog Tai Nalon, conta que já trabalhou para a Globo.com e acompanhou o início da abertura da empresa para o uso de tecnologias livres. Ela inclusive vincula o sucesso da Globo na internet, depois de anos amargando uma posição aquém da sua força editorial, ao uso dessas tecnologias.

Trabalhei numa extensão da Globo.com no ano passado como produtora de conteúdo para o portal Globoradio.com. Naquela época, a orientação executiva era de que usássemos blogs dos serviços oferecidos pelo portal Globo.com, o Globolog. Algumas semanas depois de montarmos os blogs das rádios, tivemos a notícia de que o G1 tinha peitado a orientação da diretoria e colocou todos os seus blogs baseados em Wordpress. O motivo? Além de economicamente mais viáveis, os softwares de publicação do grupo Globo.com, como blogs, fotologs e publicadores php tinham sido limados com a mudança de gestão da empresa por serem ultrapassados, engessados e mal desenvolvidos. Agora, todo o ramo de desenvolvimento de softwares da Globo.com está focada em migração da estrutura vigente para uma open source em que eles podem fazer as modificações necessárias de modo a personalizá-las apenas para eles.

O Welington Andrade, do Wakky, também relata uma experiência recente dele. Ele participa de uma rede de desenvolvimento, na qual também figuram programadores da Globo. Ele relata que as melhorias produzidas pelo Globo Online para a rede social de leitores GloboOnliners, já foram devolvidas à comunidade.

Estou estudando uma pacote para criação de redes, desenvolvido por um pessoal da Coppe-Rio. Alguns dos participantes do fórum são pessoas da Globo que usaram esse pacote na criação do Globoonliners e hoje compartilham as melhorias.

A designer Yasodara Córdova, com quem tive o prazer de trabalhar na Agência Brasil, avalia esse tipo de movimento como positivo. Ou seja, isso significaria uma vitória do software livre, abrindo cabeças da velha mídia.

Se a Globo se apropria, modifica, aprimora e continua dentro da proposta do SL é porque a empresa tomou essa decisão, simplesmente. Penso que é uma oportunidade para os programadores da área ganharem mais e serem mais valorizados, quem sabe.

O André Deak compartilha do olhar positivo. Para ele, o software livre venceu a guerra contra o software proprietário. Isso é fantástico, porque significa que o conhecimento humano será partilhado. Imaginem o que seria de nós se Galileu tivesse patenteado seu estudos, criado a Galileu.inc e impedido o uso de suas descobertas por outras pessoas.

Eu fiquei convencido, depois desse FISL, que o software livre venceu. É questão de tempo. Não pelos motivos ideológicos (a Globo.com diz não ter previsão de quando vai poder retornar suas melhorias para a comunidade, aliás), mas em alguns anos vai estar tudo dominado. Acho que é um passo, dentro de uma batalha muito maior, e na verdade pode ser que seja só um pequeno passo.

Deak lembra o trabalho de mestrado do Rafael Evangelista. Em sua tese, Evangelista mostra que existem duas correntes muito fortes dentro da comunidade software livre. A ideológica, inspirada em Richard Stallman, criador da Free Software Foundation, e outra, mais pragmática, que segue as teorias de Eric Raymond, autor de A Catedral e o Bazar e defensor do termo Open Source. São grupos que trabalham com códigos-fonte abertos, regidos por éticas distintas.

No post que originou esse blá, blá, blá todo, Deak aponta para o fato de que a Globo está “estudando” como devolver suas contribuições à comunidade. Ou seja, ainda não é prática da empresa compartilhar o que elaborou a partir do compartilhamento. Talvez por medo de que outras empresas - que não aderiram à partilha do conhecimento - “roubem” suas inovações.

A professora-doutora e pesquisadora Caru Schwingel também acrescenta informações ao debate ao revelar que o processo de abertura das corporações às tecnologias livres começou com o Terra. Esse tema foi seu objeto de estudo em Cibercultura, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Caru pertence ao Grupo de Pesquisa em Jornalismo Online, o mais sério e importante do Brasil.

Interessante esse direcionamento. Há alguns anos, eles estariam fazendo uma mesa mostrando o resultado de engenharia reversa nos sistemas web usados pela Globo. Agora, talvez tenham optado pela ênfase no aspecto de que o Software Livre, além de economicamente viável, é um dos mais robustos e confiáveis, quando o assunto é protocolos e servidores para redes telemáticas interativas. Outro sentido interessante que vejo, é que os técnicos vinculados aos Projetos Softwares Livres no Brasil têm levado suas ideologias e competências a vários projetos governamentais e empresariais. Antes de mais nada, eles garantem que uma licença GPL continue GPL, e seu trabalho parte daí. Quem primeiro fez uma migração total para SL, de forma discreta, foi o terra.

Quem mais se atreve? O que significa para você o tux platinado? Uma brincadeira de mal gosto? Uma bem-vinda vitória dos hackers? É ou não é um tema bem divertido para a gente pensar o futuro da comunicação brasileira?

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Abr 24 2008

Globo no Fisl: o que isso realmente significa?

O André Deak escreveu e eu fiquei curioso. Fui investigar, e encontrei essa foto aí. A Globo estava no Festival Internacional de Software Livre, o Fisl. Patrocinou o evento e montou estande por lá. Indaguei-me: afinal, o que isso realmente significa?

Globo no FISL

Escrevi um texto, publicado aqui e no Observatório da Imprensa com o qual debato a opção do monopólio pela perpetuação do monopólio. Nesse texto, cito a Globo, e seus padrões monopolistas.

Segundo o Deak, a Globo causou frison no Fisl. Principalmente entre os programadores, por causa da convocatória “precisamos do seu talento”. Ou seja, a Globo quer ter na sua equipe quem manje de software livre. Legal.

Dois gerentes de tecnologia da empresa, Marco Lucio Moreira e Jacques Douglas Varaschim, estiveram na sala de imprensa conversando com os jornalistas. “Não usamos software livre só pela economia. Usamos pela qualidade”, defendeu Varaschim. A Globo.com usa software livre desde 2002, mas espantou os participantes do FISL ao revelar que todo o sistema de votação do Big Brother Brasil, os blogs do portal e muito da parte interna de transmissão de vídeos é totalmente open source. Os gerentes deram vários exemplos de tecnologia livre usada pela Globo.com (a TV Globo usa alguma coisa, mas não souberam especificar). Foram questionados sobre a devolução para a comunidade das descobertas e evoluções tecnológicas feitas pela empresa, e disseram que pretendem aprender a fazer isso. “Ainda estamos aprendendo a compartilhar e devolver os códigos”, disse Moreira.

Essa é uma tendência que pode ser observada em vários lugares do mundo. No The New York Times, que usa wordpress nos seus blogs, no Washington Post, que utiliza o Django, na ABC, que, parece, usa alguma coisa de Plone.

Isso porque não faz sentido pagar caro por sistemas proprietários que vão amarrar e engessar o desenvolvimento da sua equipe. Sistemas proprietários esses, a maior parte, inferiores aos livres. É bom saber que as empresas brasileiras, em particular a Globo, sacaram isso.

Não sei porque, no entanto, lembrei-me de um trecho do artigo que escrevi outrora. Acho que ele ajuda a entender o que penso da presença da Globo no Fisl.

Não basta defender o software livre porque ele é uma opção economicamente mais viável. Isso é conseqüência. Há de se defender o software livre porque só ele permite que o conhecimento circule, que a troca ocorra, que a sociedade acumule.
Em relação à economia que o software livre gera, isso até o grande capital é capaz de assimilar. Não fosse assim, os grandes grupos não se preocupariam em produzir páginas de informação compatíveis com o Firefox, as quais, durante muito tempo, não rodavam em outro navegador que não o Microsoft Internet Explorer.
A qualidade do Firefox levou uma série de usuários comuns a utilizá-lo, o que – por critérios de mercado – vem forçando os defensores da propriedade a aceitá-lo. Mas isso é mercado. Ok, é um deslocamento. Uma assimilação. É sempre bom produzir bons produtos, mas muito mais importante é manter aberta e limpa a via para o desenvolvimento da liberdade e da comunicação.

E você, amigo ou amiga que vem até este blog, o que acha de a Globo usar sofware livre? E o que acha de madeireiros contrários ao desmatamento? E de latifundiários favoráveis à reforma agrária? Quem se beneficia com isso, eles ou nós?

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Abr 19 2008

As mídias globais e os cidadãos transnacionais

Um jornal para o mundo, para os leitores e usuários de todo o planeta. Sem fronteiras, na língua da globalização, o inglês, que é ensinado obrigatoriamente em boa parte das escolas da Terra.

A quinta edição do relatório The State of the News Media, produzido pelo Projeto de Excelência em Jornalismo, uma plataforma independente e apartidária do Pew Research Center de Washington, aponta que é isso o que está ocorrendo com os principais sites noticiosos dos Estados Unidos, em particular com o Google News, Yahoo News, MSNBC, CNN Online e AOL News.

Os sites estadunidenses (mas não só) dedicaram cerca de 25% de tudo o que produziram ao noticiário internacional que não tem relação direta com a política externa americana. E outro ¼ para as notícias ligadas diretamente aos pedaços do mundo que Bush pretende transformar em currais texanos. Especificamente o Iraque, o Paquistão, o Irã e a Coréia do Norte. Nesta lista dos desejos (mas em situação distinta), inclui-se também a China, com seus mais de 1 bilhão de habitantes, fortaleza econômica e desejos imperiais.

O gráfico abaixo, com dados relativos à cobertura em 2007, mostra a média de notícias internacionais veiculadas pelas outras mídias americanas. Os jornais dedicaram ao mundo 13% de todo o conteúdo produzido, as TVs a cabo, no noticiário noturno, apenas 4%.

News Media 1

Ao redor do mundo

O próprio documento procura apresentar uma explicação para o fenômeno.

“One import difference is that the audience for many of these web sites, according to online news professional, is more international in origin. The audience for network evening newscast, for instance, lives by and large in the United States. The audience for Yahoo News lives around the world”.
(Uma diferença importante é que a audiência para muitos desses web sites, de acordo com os profissionais de jornalismo online, é mais internacional. A audiência dos noticiários noturnos a cabo, por exemplo, vive, em larga medida, nos Estados Unidos. A audiência do Yahoo News vive ao redor do mundo)”.

Eu arriscaria outra explicação também. Isso ocorre por conta da inexistente limitação de espaço na web. Jornais são finitos. Noticiários televisivos dificilmente duram mais de uma hora, mesmo aqueles exibidos por emissoras que se dedicam 24 horas a notícias. Por conta dessa finitude, os editores precisam escolher entre um tema de abordagem nacional e um tema internacional, pensando especificamente no que pode interessar mais ao seu público.

Boa parte dos sites analisados são agregadores de conteúdos. Ou seja, processam informações (mecanicamente, por meio de algoritmos, ou, tradicionalmente, por meio da intervenção humana) produzidas por outras redações. São os serviços em inglês das agências internacionais que sobremaneira alimentam esses sites, oferecendo notícias fresquinhas da Romênia, do Kurdistão, da Argentina, do Camboja. Em certas redações, esse conteúdo é jogado fora. No online, vai para o ar.

Existe um cidadão global?

Mas quem seria o leitor desses veículos online globais?

Os cidadãos do mundo, a pequena elite de indivíduos que transita, como o capital financeiro, de Nova York a Kuala Lumpur e de lá à cidade do México em poucas horas, numa mesma semana? São esses veículos arautos de um futuro no qual teremos um conjunto de leis para cidadãos que vivem ao redor do globo? Ou se trata, sobretudo, de mídias que correspondem ao atual estado do capitalismo virtualizado e seu desejo de destroçar os Estados-Nação? Essa mídia global é produzida para o cidadão transnacional? Para mim? Para você?

Não saberia responder. E caberiam muito mais perguntas.

O que o estudo não mostra, porém, é que na contramão desse processo experiências de jornalismo hiperlocal, organizadas por comunidades para comunidades começam a surgir, mostrando que os indivíduos ainda se preocupam com aquele território reduzido no qual passam a maior parte de suas vidas: as redondezas, a comunidade, o bairro, a cidade.

Exemplo disso é Chi Town Daily News, jornal comunitário e colaborativo de Chicago. É o anti-Google News. O anti-MSNBC News. Não se trata de noticiar aquilo que ocorre em lugares que a maior parte dos estadunidenses nem sequer (e por que não dizer do planeta?) saberia localizar no mapa. Uma experiência nova, de reduzida penetração, mas que também aponta uma tendência para a comunicação contemporânea.

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Abr 08 2008

Uma odisséia pelo direito à informação

Em Brasília, 19 horas: a guerra entre a chapa-branca e o direito à informação no primeiro governo Lula, de Eugênio Bucci, 294 pp., Editora Record, Rio de Janeiro, 2008

Quando assumiu a direção da Radiobrás, em 2 de janeiro de 2003, Eugênio Bucci começou a escrever uma nova história da comunicação pública no Brasil. Com uma idéia na cabeça – lutar pelo direito à informação – munição intelectual e alguns poucos mas fiéis soldados, invadiu o Planalto Central brasileiro ciente de que sofreria vergonhosa derrota. Ao fim e ao cabo, deixou a guerra quando quis, como quis, o que só ocorre com grandes estrategistas. Venceu.

Recolheu as armas e iniciou seu périplo de retorno ao Planalto Paulista em 20 de abril de 2007, deixando para trás uma empresa transformada, um trabalho reconhecido por parte da população e as bases da reforma que o governo agora promove com a transformação da Radiobrás e da Acerp (Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto) em Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Em seus quatro anos, três meses e vinte dias de Brasília, pelejou, acertou, errou, de forma destemida, consciente que estava dos riscos.

O compilado das batalhas foi reunido em uma obra de 294 páginas que leva o nome de Em Brasília, 19 horas – A guerra entra a chapa-branca e o direito à informação no primeiro governo Lula, da Editora Record. Uma “crônica de Aldeia”, no dizer do próprio autor, honesta e profunda, em que Bucci dialoga não apenas com os iniciados no debate da comunicação – muito embora o livro seja obrigatório para comunicadores em geral –, mas potencialmente com todos os brasileiros que querem conhecer como o governo Lula se processa.

É o melhor dos livros publicados, até agora, sobre os bastidores de Brasília pós-2003 – não porque faça revelações bombásticas, mas porque descreve verdades. Algumas delas incômodas, com valor de notícia, o que ficou comprovado no último fim de semana, quando o livro chegou às páginas dos principais diários do país. No sábado (5/4), Em Brasília, 19 horas mereceu uma resenha sensível e bem apurada de O Globo, uma página bem feita de O Estado de S.Paulo e uma leitura da Folha de S.Paulo, escrita pelo apresentador do Roda Viva, da TV Cultura, Carlos Eduardo Lins da Silva [ver aqui].

No trabalho, Bucci reproduz bilhetes de José Dirceu, então ministro da Casa Civil, e de Ricardo Berzoini, ex-ministro e atual presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), narra as reações do ministro Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação (Secom) e do próprio presidente da República, e torna pública as ações subterrâneas do assessor de comunicação da Secom, Bernardo Kucinski. Sem essas histórias, não estaríamos diante de uma obra veraz. As contrariedades, disputas e pressões fizeram parte do cotidiano do presidente da Radiobrás. Mas elas são tratadas, no decorrer do texto, com extrema naturalidade – afinal, guerras pressupõem, no mínimo, dois lados contrapostos. E essa não foi uma guerra diferente de qualquer outra.

“(…) Todas as minhas críticas sobre o equívoco editorial da Radiobrás já foram feitas por escrito e oralmente ao Gushiken, ao Bucci, ao Garcez, ao Dieguez, mais de uma vez. Além disso ofereci as soluções, por escrito, também mais de uma vez. Acho que um dos problemas do nosso governo foi a forma como deixamos setores vitais em mãos despreparadas e principalmente não dispostas a ouvir. Demiti-me do Conselho da Radiobrás por causa disso e o Lassance se demitiu há pouco por causa disso. Betty [sic] Carmona também se demitiu. Registre, para todos os efeitos, que a direção da Radiobrás imprimiu uma determinada direção à cobertura jornalística da Agência Brasil, chamada por eles de jornalismo público, que além de executada de forma incompetente e não atender as nossas necessidades de comunicação, nunca recebeu mandato explícito do governo.” (Trecho de carta de Bernardo Kucinski, enviada a Gilberto Carvalho, chefe do gabinete de Lula, com críticas à gestão da Radiobrás, especialmente da Agência Brasil).


A face humana da guerra

Mas há muito mais que revelações de bastidor no livro. Em Brasília, 19 horas descreve o trabalho cotidiano de engenharia republicana que ocorreu na Radiobrás durante o governo Lula. Um esforço bélico de lapidação de conceitos, parâmetros editoriais e compromisso público realizado por personagens até então desconhecidos (entre os quais eu me incluo) e que são generosamente apresentados pelo autor-general.

Durante o tempo em que esteve à frente da Radiobrás, Bucci imprimiu – como ele mesmo afirma na introdução – o melhor de “sua personalidade para construir a impessoalidade”. Esse seu movimento foi assimilado por sua equipe, configurando uma gestão radicalmente partidária do apartidarismo, da objetividade, da pluralidade e da transparência. O resultado imperfeito – e muito aquém do necessário – a que se chegou é fruto das nossas limitações, não da falta de empenho.

O livro de Bucci também tem o mérito de contar a história da Radiobrás, uma empresa criada durante a ditadura militar e bancada há 30 anos pelo dinheiro do contribuinte ao custo médio de 100 milhões de reais por ano. Absolutamente desconhecida da maioria dos brasileiros – a não ser por ser a produtora dos 25 minutos destinados ao poder executivo em A Voz do Brasil – a Radiobrás é o óvulo da nova Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que será responsável pela TV Brasil, a imberbe TV Pública brasileira.

Conhecer de que trompas se origina a nova comunicação pública brasileira é fundamental, por um lado, para que os atuais gestores não repitam erros do passado e, por outro, para que os cidadão ampliem sua capacidade de fiscalizar os produtos editoriais da nova empresa, que será melhor à medida que mais e mais brasileiros dela se apropriarem. Tomar contato com o passado de servilismo e governismo imemorial pode impedir que retrocessos ocorram.

“Em suma, apesar do período em que ficou encarregada da promoção de civismo autoritário, a Radiobrás jamais teve a seu cargo qualquer outra função que não fosse a de informar o público, e nisso baseou sua gestão iniciada em janeiro de 2003. Com base na lei, e no que entendíamos ser o espírito da lei no transcurso do tempo, reforçamos a objetividade impessoal dos noticiários e pusemos cada vez mais para longe os resquícios de promoção governamental que subsistiam dentro da organização. De novo, a dificuldade não era tanto a lei, mas os condicionamentos internos de profissionais, herdados de traumas profundos.” (Em Brasília, 19 horas, pág. 85)

Em nome da liberdade

Outro ponto alto do livro é a defesa radical que Bucci faz da liberdade, para ele um valor inegociável. Homem de esquerda, o autor não é um liberal clássico, como afirma Lins da Silva em sua resenha da Folha – se fosse, não haveria nenhum problema, mas essa é uma afirmação falsa.

No capítulo “Um caso de bem-estar entre o presidente e a empresa”, Bucci recupera sua trajetória de militante iniciada no movimento estudantil, durante a ditadura militar, para demonstrar que sempre foi integrante de uma corrente de pensamento que via como “falso dilema” a oposição entre liberdade e igualdade. Em seu raciocínio, a liberdade é uma causa universal, “mais que burguesa, mais que liberal”. Uma defesa libertária.

“Entre janeiro de 2003 e janeiro de 2007, quando pude conversar com o presidente da República sobre imprensa, falei como um liberal convicto, embora o liberalismo não tenha sido propriamente a minha escola. A bandeira da liberdade pertence a todos, não apenas aos liberais que gostam de ostentar pedigree. Não há outro caminho: é preciso cultivar e cultuar incondicionalmente a imprensa livre, ou melhor, a imprensa, sem adjetivos – se ela não é livre, não é imprensa. Sem medo de excessos retóricos, digo que só ela pode iluminar a casa da liberdade.” (Idem, pág. 225-226)

Ao empunhar a bandeira da liberdade, pressuposto para a existência e efetivação do direito à informação, Bucci apontou um novo caminho para a comunicação pública, tema que sequer figurava na agenda da democracia brasileira quando ele acordou presidente da estatal Radiobrás, cinco anos atrás. A guerra empreendida contribuiu para modificar esse cenário. No início do segundo mandato de Lula, se discutiu comunicação pública como jamais. Em Brasília, 19 horas é mais uma contribuição a esse debate, que ainda está longe de terminar.

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Mar 25 2008

Lan house para (de) todos

Há algum tempo, escrevi um post aqui (e o publiquei no Overmundo) sobre os Pontos de Acesso ao Conhecimento. Uma idéia, até meio óbvia, de utilizar a capilaridade das lan houses, um fenômeno resultante da desigualdade brasileira, para a elaboração de uma política pública libertária. A minha reflexão surgiu a partir de uma fala do Ronaldo Lemos, que na Fundação Getúlio Vargas e no Instituto Overmundo desenvolve uma importante pesquisa sobre o tema.

Volto ao tema porque na semana passada o Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGIBr) publicou sua pesquisa anual sobre acesso e conectividade no Brasil, mostrando que a maioria dos brasileiros acessa à internet por meio de centros pagos.

Da matéria de Ana Paula Lobo, do Convergência Digital, republicada pelo Observatório do Direito à Comunicação:

Apesar de os telecentros, unidades criadas pelo poder público para fomentar o acesso à Internet, terem crescido de 3% para 6% ao longo de 2007, foram os centros públicos de acesso pago em especial as “Lan Houses”, que mostraram a sua força. Hoje, 49% dos brasileiros acessam à Internet por meio delas. No ano passado, esse número era de 30%.

Não é preciso criar uma falsa oposição entre lan houses e telecentros. Sem dúvida, nos centros públicos, a proposta de inclusão digital (cada vez mais gosto menos dessa expressão) é mais ampla. No entanto, restringe certos usos, justamente aqueles que mais atraem os jovens: jogar em rede e paquerar.

Como aponta Augusto Gadelha, do CGIBr:

Essas casas têm cumprido um papel importante para o projeto de inclusão digital. E tenho que admitir: Os telecentros têm uma política restritiva de uso, uma ação que considero inadequada. O jovem tem que jogar, mas ele também vai procurar informações depois, em alguns telecentros, inclusive, já falei isso pessoalmente para o coordenador.

Os dados divulgados pelo Comitê Gestor atestam que é preciso agir para garantir que esses centros pagos façam parte de uma rede cultural, científica e educacional, e não fiquem à mercê dos “encantos” da criminalidade – em muitas comunidades, traficantes têm se apropriado das lan houses justamente porque elas se tornaram o principal ponto de encontro da juventude.

Recupero o que escrevi no post anterior:

O que deveríamos fazer é bolar uma política semelhante àquela que foi desenvolvida pelo Ministério da Cultura para os Pontos de Cultura (fortalecer o que já existe e é legítimo). Pensei em chamar de Pontos de Acesso ao Conhecimento. Neles, por meio de editais públicos (portanto voltado apenas para os que tiverem interesse de participar), o poder público se associaria ao pequeno empreendedor estimulando-o a prosseguir com seu processo de crescimento individual (por meio de valores da economia solidária e de ações de capacitação do Sebrae, por exemplo). Em contrapartida, passaria a oferecer ao público usuário da lan-house um kit de atividades complementares, que introduzissem as liberdades (de software, de produção audiovisual, de hardware, de direitos) em suas vidas.

Sei que figuras importantes do governo federal concordam com essas premissas. Portanto, é bem possível que dentro em breve topemos com uma política pública libertária para as lan houses. O potencial das articulações em rede no Brasil é monstruoso, como aponta Jonh Perry Barlow. Do que seria capaz uma sociedade brasileira conectada? Mais que isso: uma sociedade que explore os recursos do ciberespaço integralmente a seu favor? Queria ver.

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Mar 12 2008

Novos rumos para a imprensa alternativa

São Paulo. Dia 8 de março. Nas ruas do centro da cidade, militantes realizam uma marcha em comemoração ao dia internacional das mulheres.

Sem o mesmo agito, no Maksoud Plaza, hotel de luxo a uma quadra da Avenida Paulista, jornalistas (com predomínio absoluto dos homens) da imprensa alternativa (ou de esquerda como muitos preferem) passam o dia conversando, sem uma pauta pré-definida, sobre a situação da comunicação no país e no mundo.

O encontro, na avaliação do professor Bernardo Kucinski, autor de Jornalistas e Revolucionários – Nos tempos da Imprensa Alternativa e ex-funcionário da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, foi histórico. Disse ele que jamais participou de uma iniciativa como aquela em 40 anos de carreira jornalística.

No salão refrigerado, 42 jornalistas, professores ou simplesmente pessoas atuantes na área das comunicações, de diferentes regiões do Brasil, expuseram suas idéias e contaram seus casos, de vitórias e derrotas.

A concentração era de personalidades do eixo Rio Grande do Sul – São Paulo – Rio de Janeiro, com a exceção de Ermano Allegri, da Agência de Informação Frei Tito para América Latina (Adital), que destacou a importância de envolver outras regiões do país, especialmente do Norte e Nordeste, nas próximas conversas, reais e virtuais.

Ao fim, após intervenção do jornalista Altamiro Borges, do portal Vermelho, ficou acertado que o encontro resultaria na elaboração de um relato (realizado por Flávio Aguiar) a ser compartilhado entre todos os participantes. A partir desse relato, seria produzia uma carta, cujo destinatário não foi definido (pode ser o governo, o presidente ou a sociedade em geral). Também formou-se uma comissão executiva para pensar a próxima reunião, que deve ocorrer no Rio de Janeiro.

Esses foram os resultados concretos.

No ar, ficou a idéia de uma articulação institucional dos alternativos, como resultado da evolução do processo, a Associação Brasileira de Mídia Alternativa (Asbrama).

Também muito se falou na necessidade de utilizar a internet para fortalecer a atividade de todos, e também na necessidade de aproximação com emissoras de rádio e TV. Outro tema que dominou o diálogo foi a formação dos jornalistas.

Um encontro assim seria impensável anos atrás?

Considerando o fato de as iniciativas feitas pelo Intervozes para articular a imprensa alternativa não terem avançado, a resposta é: sim. O coletivo realizou um seminário com grande público no Fórum Social Brasileiro, em Belo Horizonte, para justamente debater caminhos conjuntos para os veículos alternativos. Na seqüência, foram organizadas reuniões – algumas ocorreram -, montou-se uma lista de discussão, elencaram-se ações objetivas, mas o esforço não apontou para convergências.

O que mudou de lá para cá, na minha avaliação, é a expectativa que tinham todos esses veículos em relação ao governo Lula. Em sua maior parte, apoiadores do projeto de poder que levou o Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência, acreditavam que o governo desenvolveria algum programa para democratizar as verbas de publicidade, que engordam os cofres da imprensa e da mídia comercial. Isso não ocorreu, e boa parte dos veículos vivem à míngua, em xeque.

A prova disso que digo é o fato de o encontro de sábado ter sido chamado pelo advogado Joaquim Palhares, um empresário comprometido com as causas sociais, petista histórico, que fez da Carta Maior a mais importante experiência recente de produção de jornalismo alternativo. Carta Maior não sobreviveu à falta de anunciantes e apoio e, no final do ano passado, desarticulou sua profissional redação, que contava com gente do primeiro time da comunicação brasileira.

A derrocada de Carta Maior, que permanece no ar desfigurada de seu projeto de reportagens, é semelhante a de outras publicações. Allegri, na reunião, destacou que a Adital teria recursos suficientes para sobreviver por no máximo mais seis meses. Outras experiências encontram-se na mesma fronteira.

Isso, no entanto, não fez com que o debate se concentrasse apenas em formas de garantir remuneração a esses projetos. Esse tema, evidentemente, surgiu em vários momentos da discussão. Fundamental que seja debatido, mas na minha opinião esse debate não pode ser feito dissociado da idéia de independência. Os veículos alternativos precisam, acima de tudo, de independência editorial.

A agenda, a mídia e a democracia

Essa difícil situação poderia engendrar um processo rancoroso. Por isso, surpreendeu-me que não tenha sido um encontro de exclusiva contraposição à grande imprensa (ou à mídia burguesa no jargão classista), o que seria até normal, considerando o clima de flaxflu que marca o debate contemporâneo.

Ainda que essa contraposição – capitaneada nos últimos tempos por Paulo Henrique Amorim (contraditoriamente funcionário da TV Record, a que mais cresce no Brasil) e seu discurso simplificante – encontre partidários entre os alternativos, as bandeiras desfraldadas foram muitas e as abordagens múltiplas.

Muito se falou na agenda. Ou seja, nos temas que são abordados e debatidos no espaço público por obra dos meios de comunicação. Da necessidade de se construir uma agenda alternativa.

Acho esse um excelente debate, desde que venha no plural: construção de agendas. O resto é o velho choque de agenda que marca a relação entre mídia e poder, com pequenas variações. A construção de uma pauta alternativa, no entanto, é assuntos dos mais importantes. Mas essa pauta só irá emergir de um debate radicalmente crítico, não do choque de teses. Liberdade é a palavra-chave.

Coube ao jornalista Cláudio Cerri a mais inovadora leitura sobre a crise da agenda neoliberal. Em sua avaliação, os veículos de comunicação privados não mais querem impor uma agenda para a sociedade, mas sim impedir que sua agenda superada seja varrida do mapa.

“O que não é o mercado é corrupção”, sintetizou Cerri. O problema, no entanto, é o quanto essa agenda foi internalizada, em processos do estado brasileiro, por obra do próprio governo Lula, e seu pragmatismo. Nesse caso, não há choque de agendas, mas sim convergência de expectativas. E isso a imprensa alternativa deveria apontar.

André Singer, que foi secretário de imprensa do governo Lula, falou da importância de um jornalismo de esquerda crítico e apartidário. Na sala, havia bons e nanicos exemplos disso. “A imprensa é conservadora mas não antidemocrática”, disse.

A frase de Singer, além de desbancar a tese de golpismo, aponta para o futuro. Aos alternativos, resta serem democráticos e progressistas, contribuindo para que o debate público avance. Isso, num cenário de adensamento informativo, requer meios. Ou seja, é preciso ser grande. Alternativo não é sinônimo de nanico, não precisa ser.

Internet, juventude e o discurso pós-moderno

O encontro demonstrou que há, hoje, mais que ontem, uma disposição dos alternativos de abdicar de cacoetes discursivos que impedem a ampliação do debate e, conseqüentemente, limitam o papel desses meios no espaço público. Na era do estilhaçado, em que a realidade projeta-se através de um prisma de possibilidades, a unidade de ação (“frente ampla”) tornou-se old fashion.

No sábado, a idéia de uma só voz foi substituída pelas pós-modernas ninfas: diversidade e pluralidade. Termos como colaboração, agregação e compartilhamento foram usados recorrentemente.

Era um encontro de, sobretudo, homens com mais de 50 anos. A juventude, ali, aparecia com projeção, uma idéia, algo remoto. O discurso que se fez sobre os jovens demonstra total falta de contato de boa parte desses baluartes com a revolução que está em curso: a revolução da internet.

Ainda que muitos tenham falado na importância da rede para o futuro de seus empreendimentos – muitos deles há muito tempo existem apenas no ciberespaço – percebe-se que poucos têm contato com o que se convencionou chamar de web 2.0.

Em minha fala, único participante do encontro com menos de 30 anos, defendi que é preciso pensar o processo de formação da imprensa alternativa em duas vias: 1. sim, aproximar os jornalistas e veículos alternativos das escolas de comunicação e de outros espaços nos quais a juventude esteja produzindo informação; 2. Mas, fundamentalmente, é preciso aprender com os jovens. A imprensa alternativa precisa descer de seu pedestal e vir aprender a usar blogs, videocasts, podcasts, a interagir com o leitor, a desenvolver dinâmicas participativas, redes sociais, a usar twitter etc.

Ao tomarem contato com esse outro mundo, os alternativos perceberão que a imprensa alternativa se processa numa miríade de pequenas experiências.

É preciso agir sobre esse universo, pautá-lo, de forma interativa, aceitando que o mundo atual não prevê caminhos centralizados, que as tecnologias de informação e comunicação (TICs) são filhas da anarquia, que são o resultado do esforço de gerações que raptaram os produtos da indústria bélica e deram a eles uso social, que isso tudo pode e deve estar ao alcance de todos (essa, a nossa grande bandeira).

Veja a lista de participantes:

Adalberto Marcondes (agência Envolverde), Altamiro Borges (Vermelho), André Singer (jornalista e cientista político – USP), Antônio Biondi (site o Brasil de Aloysio Biondi), Antônio Martins (Diplô Brasil). Bia Barbosa (Coletivo Intervozes) Bernardo Kucinski (professor da ECA); Carlos Azevedo (Revista Retratos do Brasil); Celso Horta (ADCD Maior - http://www.abcdmaior.com.br/); Dario Pignotti (Ansa, Página 12 e Manifesto); Denise Tavares (professora PUC Campinas); Elma Bonés (Jornal Já); Enio Squeff (artista plástico e jornalista) ; Emiliano José (professor da UFBA). Ermano Alegri (Adital); Flávio Diegues (Diplô Brasil); Flávio Tavares (jornalista e professor aposentado da UNB); Flavio Aguiar (Carta Maior); Geraldo Canalli (jornalista e professor da UFRGS); Gilberto Maringoni (professor da Cásper Libero); Gustavo Gindre (Coletivo Intervozes); Hamilton de Souza (PUC-SP); Inácio Neutzling (Revista IHU da Unisinus); Ivana Bentes (professora e diretora da Escola de Comunicação da UFRJ); João Pedro Dias (professor da UERJ), Joaquim Palhares (Carta Maior), Laurindo Leal Filho (Programa Ver TV e ECA-USP); Leonardo Sakamoto (Repórter Brasil); Luiz Carlos Azenha (Blog Vi o Mundo); Marco Antonio Araújo (jornalista); Marcos Dantas (professor de jornalismo da PUC-Rio); Mauro Santayana (jornalista); Neutair Abreu (mais conhecido como Santiago, chargista); Paulo Salvador (Revista do Brasil), Renato Rovai (pela Revista Fórum); Rodrigo Savazoni (Coletivo Intervozes - Em Busca da Palavra Justa); Sérgio Gomes (Oboré); Sérgio Souto (Monitor Mercantil); Tadeu Arantes (jornal Diplô Brasil); Verena Glass (jornalista e colaboradora da Carta Maior).

Leia o relato aqui ou aqui

Também a avaliação no blog do Rovai

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